O FASCISMO NOSSO DE CADA DIA: COMO ACABAR COM ELE?

Março 3, 2012

Eu às vezes acho que a maioria das pessoas, em alguns momentos, pode ter sentimentos horríveis, e por vezes contraditórios, quando vê a miséria, a pobreza, o mendigo, ou mesmo quando vê, por exemplo, dois homens se beijando. é bom para entender ate os piores e mais malignos. Mas esse sentimento não deixa de ser horrível.

De certa forma, é compreensível que aquilo que é feio, ruim, sujo, nos cause asco. E desse asco, pode vir a . Em certo ponto, a eutanásia não deixa de ser muito diferente disso (uma grande contradição da extrema-direita, porque eles são a favor de eliminar diversos grupos, mas são contra eliminar a pessoa que deseja, ela mesma, ser eliminada).

A esquerda parece que acaba gostando do que é feio e desagradável para se opor a isso. Aí vemos um lado muito positivo da direita mais liberal, ao propor a idéia de que todos podem melhorar. Claro que o “você também pode melhorar” tem um lado negativo (o positivo é que pregam que todos podem melhorar e por isso buscam a igualdade de oportunidades; o negativo é que alguns, como os livros de auto-ajuda, chegam a dizer de uma forma patética, hipócrita, como se fosse fácil melhorar, como se bastasse querer que a pessoa pode melhorar)

Temo que a maioria das pessoas tenha um pouco desse sentimento higienista, esse sentimento indigesto, essa raiva da situação em que se encontram os fracos, feios, miseráveis, desgraçados, etc. que acaba virando uma raiva desses indivíduos portadores desses problemas. Não digo isso para defender esse sentimento, como se fosse inevitável. Digo para que ele seja esclarecido, para pararmos de fingir que ele não existe ou que é apenas uma coisa ideológica e cultural de uma extrema direita sombria e psicótica. Precisamos resolver esse problema, para que as pessoas não sejam mais alvo de todos os sentimentos de que costumam suscitar por sua situação de miséria: desde os mais nobres, como a dó e compaixão, até os mais perversos e sombrios, como essa vontade de expurgá-los do mundo para que os problemas que trazem consigo sejam também expurgados. E esses sentimentos nobres podem estar mais misturados com esses sentimentos sombrios do que podemos pensar.

Claro, a melhor maneira de resolver esse problema é dar às pessoas melhores condições de vida. Mas isso não é fácil. E além disso, o problema a que me refiro aqui não é dos pobres, dos miseráveis, da pessoa que tem a cara destruída, do mutilado, e sim da pessoa que sofre ao ver e conviver com essas pessoas. E da pessoa que fica com raiva dessas pessoas. E da pessoa que fica com raiva de outros grupos que não tem necessariamente um problema como esses, mas que não são aceitos por essa pessoa: o negro, o gay, etc. A não ser que você seja um desses religiosos fanáticos e, na minha opinião, doentes e esquizofrênicos, que acham que um gay precisa ser “curado”, ou aqueles loucos do começo do século 20 que queriam “embranquecer” a população, você verá claramente que o problema não está neles, mas em quem se incomoda com eles. Mas temo que muito mais gente se incomoda com algumas imagens do que pode parecer. Porque falar sobre isso é um tabu, ainda mais no Brasil, terra do “racismo velado”, onde todos fingem conviver bem mas nas profundezas do inconsciente, da mente humana, dos sentimentos, coisas muito mais sombrias e lamentáveis acontecem.

E esse mesmo sentimento de raiva de um grupo ou tipo de pessoa pode se voltar justamente contra os fascistas, os skinheads, a extrema-direita, os psicopatas. Claro que por motivos mais compreensíveis e nobres, e justamente por querer acabar com esse tipo de sentimento: se a cabeça dessas pessoas é impossível de mudar, se elas vão continuar ameaçando grupos por questões superficiais como preferência sexual ou cor, ou ainda por ideologia, eles devem ser exterminados. Se não se pode dialogar com eles, deverão ser presos ou assassinados.

Infelizmente, a História nos mostra que em alguns casos isso realmente é necessário. Alguém acredita que os nazistas poderiam parar de outra forma que não fosse perdendo uma guerra? Como você vai negociar com alguém como Hitler? Oferecendo a Polônia em troca de 5 mil judeus? Ou o contrário, oferecendo 5 mil judeus em troca da Polônia? Não dá, não tem como. É triste ter que concluir isso, mas foi um caso em que a guerra era a única forma de conseguir a paz no mundo. Não vou entrar na questão de que os Aliados e os Soviéticos podem ter sido em alguns momentos tão cruéis e sanguinários como os Nazistas. As bombas atômicas lançadas pelos EUA e as crueldades de Stalin e outros ditadores comunistas falam por si só. Mas o fato é que com essas pessoas ainda havia alguma maneira de dialogar e negociar. Com Hitler, fica mais difícil. Era uma espécie de serial-killer de larga escala. O objetivo era dominar o mundo e destruir algumas raças, não era um meio, como foi para os EUA jogar as bombas que mataram milhões e causaram contaminações absurdas no Japão. Alguém pode dizer que Stalin ficou tão louco que também era impossível negociar com ele, e que em alguns momentos foi possível negociar até com Hitler, como no tal pacto entre ele o próprio Stalin.  Mas é complicado quando o objetivo das pessoas é exterminar certos grupos. Da mesma forma que houveram negociações com Hitler, você pode em alguns momentos negociar com um serial killer, mas você sabe que para aquilo tudo acabar mesmo, só se você prender ou matar o sujeito.

Pois bem, essa é uma medida extremista, e defendê-la como bandeira seria uma estupidez que leva a tragédias como foi a Segunda Guerra Mundial. Primeiro, seria difícil determinar quem são os fascistas, os que merecem a morte ao invés de qualquer diálogo, reeducação, ou coisa do tipo. Em segundo, eles também não iam ficar parados esperando de braços cruzados que as pessoas os caçassem. Eles iriam se armar e sair violentando e matando as pessoas por aí também. Portanto, a melhor solução é tentar dialogar com as pessoas e entendê-las. Por que alguém fica assim? Por que alguém se transforma em um skinhead? Por que alguém chega à conclusão que certos grupos devem ser exterminados, e dedica sua vida a essa causa?

Eu fiz isso um pouco. Dialoguei, de forma agressiva e provocativa muitas vezes, mas ficando no diálogo, com neo-nazistas, através da Internet, onde a violência física é impossível. Eles foram obrigados a me ouvir. Não acho que eu tenha conseguido transformar um nazista em uma pessoa consciente da noite para o dia, mas acho que consegui mais do que muitos tentam, e muito mais do que campanhas educativas patéticas em escolas, tipo “Não seja rascista”, conseguem. Alguém acha que um skinhead vai ver um cartaz infantil desses e vai ter um toque na consciência? As campanhas contra a homofobia, por exemplo, parecem ter gerado mais raiva de todo o movimento em defesa dos gays. Por que? Porque elas infantilizam as pessoas.

Às vezes a provocação é necessária, para a pessoa ouvir. Tipo “o grande líder que você venera teve que se matar porque ele era esquizofrênico e o plano dele não deu errado”. Claro que isso só é possível na Internet, no cara-a-cara o sujeito vai partir para cima de você (se já não tiver partido antes). E não se pode ficar só na provocação, senão você pode até piorar a coisa (provocar psicopatas não vai amenizar o instinto assassino deles). É necessário, junto com isso, falar coisas mais inteligentes, mostrar contradições, e até mostrar que você não é tão diferente deles: “eu também não gosto de ver dois homens se beijando, mas você não acha que odiar os gays por isso é um egoísmo absurdo?”

Falando de pessoas mais comuns, e com quem é possível ter algum tipo de diálogo e até algumas risadas, eu conheci nos EUA um sujeito muito divertido, porém bastante racista e preconceituoso. Não gostava de negros, de japoneses, e nem de árabes. Pode parecer surpreendente que mesmo tendo contado para ele que eu sou 50% árabe nós dávamos algumas risadas juntos: por que uma pessoa assim seria amiga de um árabe? E por que um árabe que odeia o racismo e o preconceito seria amigo de uma pessoa assim?

Os socialistas e a esquerda mais radical em geral, os anti-preconceito mais extremistas, vão achar um absurdo, vão me condenar por ter ficado amigo de uma pessoa assim. Mas eu vos aconselho a virarem seus dedos para si próprios, porque enquanto vocês ficam repetindo para as paredes argumentos de ódio (que acabam muitas vezes se igualando justamente aos argumentos de quem vocês querem combater), eu estava usando toda minha inteligência, meu humor, meu tempo, meu raciocínio, minha capacidade de ouvir e de falar, para tentar mudar a cabeça de uma pessoa, e para entender porque essa pessoa pensa assim, já que, como muitos falam, ninguém nasce rascista. Se eu tivesse brigado com ele por ele ser assim, ele iria apenas confirmar na cabeça deles que nós “árabes, brasileiros, estrangeiros, etc.” somos pessoas ruins.

Não estou falando que devemos mandar flores para a Klu-Klux-Klan. Estou falando que se você é diferente deles, deve agir por outros meios. Deve tirar sarro deles. Deve dialogar, perguntar por que pensam assim, mostrar as contradições nos pensamentos deles, os erros. É isso ou prender e matar, não é? Ou você pretende deixar essas pessoas soltas por aí, sendo como são, e criticando elas pelas beiradas como se fosse muito corajoso e muito ético, mas sabendo no fundo que você não está fazendo nada de efetivo para mudá-las? Se eu estou andando na rua, tenho uma arma, e vejo 5 skinheads espancando um preto ou um viado, eu não vou pensar duas vezes se puder matar os 5 skinheads e ajudar o sujeito que está sendo espancado. Salvarei um inocente, e tirarei de circulação 5 pessoas que ameaçam gravemente o bem-estar social.

Mas como eu já disse, não podemos apostar nessa solução, isso é para momentos de emergência. Até porque skinheads são poucos, grande parte do racismo e do preconceito estão camuflados nas mentes e nas emoções das pessoas, junto com outros pensamentos e emoções menos perigosos. De forma que a própria pessoa se contradiz muitas vezes, porque ela em algum ponto de sua consciência imagina que é errado pensar assim, mas tem aquele sentimento de raiva, de desprezo, contra aqueles grupos.

Vamos supor que 80% das pessoas fossem racistas. Você mataria todas elas? Não, você não mataria, nem se quisesse. Então, se você realmente quer mudar o mundo, comece dialogando com elas, entendendo elas, e comece com você mesmo, fazendo um “pente-fino” na sua consciência e nos seus sentimentos para se certificar de que não existe nem uma sombra de preconceito e de sentimentos de raiva contra algum grupo. Até porque, o preconceito é algo automático, é natural de nossa mente. Só vai embora se nós aprendemos a percebê-lo e a lidar com ele. Não é negando o preconceito, não é apenas tendo raiva de qualquer coisa que lhe pareça preconceituosa, que ele vai sumir.

2 Respostas to “O FASCISMO NOSSO DE CADA DIA: COMO ACABAR COM ELE?”

  1. L.julia Says:

    Muito bom! Mediante o cenário político atual essas palavras chaves (Fascismo,higienismo,ideologia,preconceito…) são muito usadas em comentários em redes sociais repetidamente e de uma forma que somente ataca e ataca,tanto a fonte quanto os outros que comentam algo sobre..Sei que as práticas fascistas estão instaladas no dia-a-dia (A naturalização dos massacres dos mais pobres por agentes do Estado ; com a corrupção; o moralismo cada vez mais hipócrita a serviço de escândalos capazes de vender jornais)… E bem sei e Penso que seja útil e extremamente importante ler um texto como esse pra esclarecer algumas dúvidas e “passar um pente fino” na consciência antes de sair difundindo ódio e desprezo contra tudo e todos..


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