O QUE PODEMOS APRENDER COM AS ELEIÇÕES DE 2010?

Novembro 5, 2010

De um lado, decepção, repetição de coisas ruins para o país, falta de criatividade e em alguns casos, como não pode faltar na política, até de caráter. De outro, uma luz muito forte no fim do túnel.

O desânimo foi com os dois principais candidatos e todos aqueles que os apoiavam, mas foi mais ainda com boa parte da imprensa e da sociedade. De outro lado, a luz forte no fim do túnel, para mim, vem, obviamente, da campanha de Marina Silva, da qual sou um pouco suspeito para falar por ter participado e por ser um grande fã de Marina.

Serra e Dilma fizeram uma campanha meio fraca, não apresentaram um programa de governo que possa ser chamado como tal, e quando viram a força de Marina nos seus 20 milhões de votos, eles e principalmente seus apoiadores passaram a disputar o apoio dela de forma ridícula, inclusive dando a entender que ela estava apoiando sem autorização dela. Marina postou, em seu site, um protesto contra a campanha de Serra por declarar apoio dela e até criar um e-mail falso para Marina. E os aliados de Dilma não ficam para trás no jogo baixo: um blog quase oficial da campanha, o “Blog da Dilma” , havia colocado um texto bem ofensivo, chamando Marina de traidora, e depois, no segundo turno, não apenas tirou esse texto, como ainda colocou um banner verde escrito “Sou Marina voto 13”. Além de algumas pessoas que vi no Twitter usando o “Eu Sou + 1” de Marina para votar em Dilma.
Esse ultimo caso, assim como as cores usadas pelo adesivo de Serra no segundo turno (bem parecidas com as de Marina- um amarelo com azul e branco, bem parecido com o amarelo, verde e branco do adesivo de Marina), ou foi uma necessidade de copiar por falta de criatividade ou, o que acho mais provável, uma tentativa de confundir os mais desinformados para eles acharem que a Marina estava com o Serra, ou com a Dilma. Colegas meus afirmaram “Marina está apoiando o o Serra. Fiquei decepcionada.” Eu duvidei, e ela disse que viu no jornal. Quando fui ver, era uma mensagem da campanha de Serra falando que segundo o Datafolha 51% dos “marineiros” já estavam com Serra.

Esse já é um outro caso, de desinformação talvez, como o de muitas pessoas que diziam “ah, eu ia votar na Marina, mas fiquei com medo de a Dilma ganhar no primeiro turno”. Uma regra básica de nossas eleições essas pessoas não conheciam: para ganhar no primeiro turno, é preciso ter 50% a mais que todos outros candidatos juntos, não importa quanto Serra e Marina teriam, bastasse que somados tivessem mais que Dilma.

E junto com isso, ainda tinha toda a crítica muitas vezes superficial e maldosa da imprensa, da qual não só Marina mas todos os candidatos são vítimas. Mas isso acaba nivelando os candidatos e apagando suas qualidades, além de exagerar seus defeitos e até mesmo criar defeitos que não existem.

E uma parte considerável da sociedade também teve seu papel negativo. Continuou em uma briga raivosa, irracional, parecida com aqueles piores tipos de torcedores de futebol, agressivos e iludidos, cegamente apaixonados por algo que nem compreendem direito. PT contra PSDB, e ocasionalmente críticas agressivas e irracionais dirigidas também contra Marina. Pessoas que não sabiam direito o que está acontecendo, mas queriam deixar seus desabafos.

E no segundo turno, ou mesmo depois da eleição de Dilma, ficou claro que muitas dessas pessoas tinham uma certa prepotência: qualquer coisa diferente do que eles queriam (eleger Serra ou eleger Dilma) era absurda. Marina foi acusada por eles de estar cometendo um grande erro por “deixar uma terrorista ganhar e implantar uma ditadura”. Ou por não apoiar seus companheiros históricos do PT e sua luta em nome dos pobres e dos trabalhadores. Francamente, isso comigo não cola. Espero que não cole com mais ninguém.

E aqui vemos uma diferença importante entre Marina e seus adversários, mas também entre os eleitores e apoiadores de Marina e os eleitores e apoiadores de Serra e Dilma. Ofensas pessoais foi algo que não vi entre os que faziam campanha por Marina. Para falar a verdade, vi uma vez, em toda a campanha, uma pequena ofensa de um apoiador de Marina. Uma vez! Sendo que eu ficava o dia inteiro lendo comentários, e via no mínimo uns 15 comentários ruins por dia de dilmistas e serristas, petistas e tucanos.

De outro lado, um movimento muito bonito, histórico, da campanha de Marina. Não apenas da Marina Silva, mas de toda uma parcela da sociedade, do empresariado, de líderes sindicais, etc. De igrejas também, mas há de se dizer que muitas igrejas, principalmente aquelas mais suspeitas, como a Universal de Edir Macedo, apoiaram Dilma, o que faz muito menos sentido do ponto de vista ético: porque um evangélico apoiaria Dilma? O que eles possuem em comum?
Mas mesmo assim, Marina foi criticada, chamada de fundamentalista, e acusada por internautas raivosos de ser apoiada, por exemplo, pelo mesmo Edir que declarou apoio a Dilma! Um pastor maluco rompeu apoio a Marina por ela não ter uma posição “clara” sobre aborto, sendo que ela tinha a posição mais clara, mas curiosamente, enquanto alguns chamavam ela de fundamentalista por se assumir pessoalmente contra o aborto, os que realmente são fundamentalistas foram mais espertos que esses ateus raivosos e perceberam que, mesmo tendo essa visão pessoal conservadora, Marina era, entre os 4 principais candidatos (incluindo o cristão Plinio de Arruda Sampaio), A ÚNICA que defendeu a ideia de discutir mudanças na legislação de aborto e de outros temas polêmicos como a legalização das drogas, porque ela entende que são questões complexas, porque envolvem aspectos religiosos, morais, filosóficos, etc. Uma pessoa não pode decidir isso sozinha, em um país que se pretende democrático. Aí, por ter dito isso, foi acusada por alguns, como o querido Plínio, de ser “em cima do muro”.

Fato é que Marina colocou finalmente em xeque a polarização entre PT e PSDB. Já está na hora de sairmos dessa disputa infantil e entrarmos em uma nova fase. Foi isso, mais que o meio-ambiente, que me fez começar a admirar ela bastante: sem deixar de elogiar FHC e Lula, que foram para mim os melhores presidentes que já tivemos, Marina defendeu, desde o começo da campanha, um realinhamento, uma nova fase. O PT e PSDB,e principalmente esse duelo entre eles, já deu o que tinha que dar.

A campanha teve seus defeitos, sim. Marina tem seus defeitos.Ninguém é perfeito. Mas foi uma novidade inquestionável, e mesmo sem ter sido eleita ela marcou as eleições de 2010.

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