A MAGIA DO FUTEBOL E TUDO QUE EXISTE POR TRÁS DELA

Maio 12, 2010

Quando começa aquele som da multidão unida, torcendo, vibrando, não há quem não se arrepie. É fantástico o poder que um jogo de futebol causa. Mas infelizmente, tem coisa muito ruim por traz de toda essa beleza.
Realmente um jogo de futebol profissional é algo muito interessante. Toda a habilidade, a inteligência nas jogadas, o esquema tático, as jogadas ensaiadas. Isso traz muita diversão para as pessoas, e vira motivo de festa. E além disso, todo o apelo do esporte pela saúde, pela garra, pela determinação, pelo fair play, e contra as drogas, a violência e o crime. Sem falar no rompimento das barreiras entre pobres e ricos: para jogar futebol, só precisamos de uma bola, e um espaço, e pode-se até improvisar com qualquer objeto, ao invés de bola, e com um pequeno espaço, para brincar um pouco. E o futebol profissional é uma possibilidade de ascensão, uma chance na vida das milhões de crianças pobres que não podem estudar.
Então, onde estão as coisas ruins? Tudo parece tão belo, tão louvável! Mas existe um pouco de ilusão em tudo isso: primeiro, que a tal possibilidade de vencer na vida através do futebol só existe para uma minoria, e acaba iludindo milhões de crianças e jovens, a maioria sem chegar muito longe (e sem tentar vencer na vida de outras maneiras). E se considerarmos que os jogadores de sucesso, o modelo em que se baseiam crianças no mundo inteiro, os heróis dessas crianças, ganham milhões por mês, e que, como dizem os economistas, os recursos são escassos, o dinheiro é escasso, o futebol profissional só aumenta a desigualdade e a pobreza. Outro motivo para percebermos que a competição esportiva profissional é apenas um motor de desigualdade e pobreza é o próprio processo que a causa: é o mesmo processo que acontece nas empresas, e em quase tudo. A meritocracia e a competição, só que uma meritocracia distorcida, exagerada, e muitas vezes injusta. Quando alguém começa a se dar bem, vai ganhando cada vez mais com patrocínios, salários, competição entre os times por essa pessoa, e chega a ganhar esses milhões, enquanto outros que muitas vezes jogam quase tão bem quanto, ou que ao menos são tão esforçados quanto, ou mais do que isso, acabam ganhando salários desprezíveis.
Em segundo lugar, o apelo à saúde também tem um lado falso: quando tratamos de esporte PROFISSIONAL, não é a saúde a finalidade do exercício, mas a vitória, o dinheiro, a carreira profissional. E muitas vezes, para atingir esse objetivo, as pessoas não apenas desprezam a saúde, mas até chegam a ir contra ela, obrigando jogadores a tomarem hormônios, esteróides, entre outros. Além disso, todo o treinamento é feito para o jogador ser uma máquina, ser mais forte, mais resistente, mas não necessariamente para viver mais e melhor. Sem falar nas contusões.
Terceiro lugar: o apelo pela paz, contra a violência e o crime, também é duvidoso. A maioria dos crimes no mundo acontece pela ganância, pela competição, seja para sobreviver ou para ter mais dinheiro, mesmo já tendo boas condições de sobrevivência. Exceto os crimes cometidos por psicopatas, por puro sadismo, os outros são baseados na mesma mentalidade que uma competição esportiva, ou qualquer competição. Aliás, até mesmo o sadismo e a psicose têm uma relação forte com a mentalidade competitiva: o sabor de ver o adversário derrotado e de ter dominado ele, pisado nele, vencido. Como as pessoas conseguem ficar tão felizes com um acontecimento onde metade dos envolvidos sai derrotado, triste, deprimido? Como fazer tanta festa com uma coisa que, no fundo, é tão anti-social, tão parecida com uma guerra? E para piorar, às vezes se torna realmente uma guerra, entre jogadores, ou o que é pior, entre as torcidas.
Em quarto lugar, ainda existe a questão da diversão, que é a grande finalidade dos torcedores todos. Será que realmente nos divertimos com o futebol? A sociedade brasileira de cardiologia acaba de realizar uma pesquisa onde mostra que o número de infartos na Copa do Mundo aumenta bastante. Muitos dirão que qualquer coisa que causa muita euforia, o sexo, por exemplo, pode dar infarto. Verdade, mas o problema não são apenas infartos: são as brigas, toda a preocupação, o desespero durante toda a partida, a tristeza da derrota. Sem falar numa coisa que eu acho totalmente ridícula: toda a seriedade, toda a análise cuidadosa, técnica, dos jogos, dos lances, das decisões do juiz. Qual o sentido disso tudo? Não era uma diversão? Por que tanto investimento de tempo, de dinheiro, de preocupação, de raiva, em algo que deveria ser uma diversão? E qual o sentido de torcer para um time? Por que motivo você ama tanto o São Paulo e não o Corinthians, o Flamengo e não o Botafogo? Porque seu pai torcia? Porque você simpatizava com o time durante uma época?
O pior é que parece que no Brasil, quando as pessoas deixam de se preocupar tanto com futebol para voltar sua atenção para política, para as coisas que acontecem nas NOSSAS VIDAS, E COM O SEU BOLSO, e não com o do seu time do coração, elas adotam a mesma posição apaixonada, raivosa, estúpida, que têm no futebol. Elas começam a torcer para um “time” (um partido político, uma ideologia, um candidato, etc.) e não aceitam nenhuma crítica a esse “time”. Não conseguem ter um debate racional, consciente.
Eu também me arrepio quando começa um jogo de futebol, e vejo toda aquela sincronia entre milhões de pessoas, gritando ao mesmo tempo, em cada jogada, e principalmente nos gols. E também vejo todo o lado bom que existe nisso. Mas não podemos nos enganar. Quero que todos entendam que isso é apenas um sentimento desprezível, inconsciente, e ilusório. E que não acontece só com futebol. Qualquer show de uma banda famosa em um estádio grande traz até mais dessa emoção, porque junto com toda a emoção de uma multidão cantando junto, existe a música, algo que traz muita emoção também (e sem toda a energia negativa trazida pela competição). Até mesmo o discurso de um político hábil traz essa emoção toda. Quanta gente não se emocionou com os discursos de Obama? Ou o que é pior, de Hitler!! Claro, o futebol profissional não é tão ruim quanto o nazismo, mas ele causa o mesmo sentimento de uma massa irracional, inconsciente, prestando atenção, e se emocionando com algo que parece muito bonito, louvável, heróico.

Não quero que as pessoas parem de assistir ao futebol, parem de fazer festa na Copa do Mundo. Até porque, tudo que disse aqui vale para qualquer esporte profissional, e algumas coisas valem para qualquer competição. Quero apenas que parem de dar tanta importância, e que aprendam a apenas curtir isso, que transformem isso numa diversão, e não em um entretenimento besta, um vício, um motivo para ficar indignado, triste, enraivecido, violento, chato, e acima de tudo, burro… Se você se deixa levar por esse sentimento todo da multidão, do narrador dramático, vai ser um idiota, uma massa de manobra, e vai sofrer muito à toa sem finalidade alguma (porque sua finalidade, pensava você, era se divertir, mas acabou se tornando a vitória, e essa vitória nem é sua, é de um time do qual você não faz parte). E senhores narradores, por favor, parem de chamar jogadores de heróis! Um cara que está se esforçando só para aparecer, ganhar dinheiro, e bater no peito falando “eu sou foda”, não tem nada próximo de um herói, no máximo a tal “garra e determinação”, mas essa mesma garra e determinação muitas pessoas têm, heróis e vilões. O que transforma alguém em herói não é sua garra, mas como ele a usa. Dito isso, vou comprar minha camisa da seleção da Argentina e torcer para que o Brasil perca dos hermanos na final, porque vai ser muito engraçado, e acredito sinceramente que será melhor para o país, mesmo depois de alguns dias de tristeza para essa nação entorpecida.

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