Desperdício de críticas, moralismo, “seriedade”

Outubro 23, 2009

Eu vejo no Brasil e em outros lugares, como nos EUA, muita gente desperdiçando toda sua energia de crítica, de “seriedade”, com coisas totalmente inúteis. Vou dar aqui dois exemplos: futebol profissional, e linguagem. Explico adiante.

Primeiro, o futebol: o brasileiro se indigna com a corrupção no Corinthians, na CBF, na FIFA. Francamente, será que isso faz tanta diferença na vida das pessoas? Quem está sendo tão prejudicado pelas adulterações de resultado? É tão importante assim que seu time tenha perdido, ou ganhado, injustamente? É só um jogo!!! Se o mundo e o Brasil estivessem perfeitos, tudo bem, mas me parece que temos problemas um “pouquinho” mais importantes, inclusive de corrupção, não é mesmo? Fico triste de ver alguém tão inteligente, bem-intencionado, sincero, etc, etc, etc, como Juca Kfouri, desperdiçando sua energia e suas idéias com isso….

Segundo: a linguagem. Essa parte vou dividir em duas. Antes vou falar do moralismo conservador que condena fortemente os chamados “palavrões”. Por exemplo, eu estava em um curso on-line de direitos humanos, e um indivíduo fez um texto sobre os “10 mandamentos para seu filho se tornar um marginal”. Entre eles: “deixe seu filho falar palavrão”. Meu pai já até ensinou palavrões para meu irmão, e tirando a boca-suja, não me parece que ele seja um marginal. Conheço uma excelente professora de português, que faz muitas boas ações para pessoas carentes e animais, é um exemplo de pessoa, e que foi duramente criticada, em público, por Rosely Sayão, a famosa sexóloga, só porque ela falou algo como “trepar”, numa sala de sexta série. Claro, grande absurdo, ela deve ser uma marginal também. Afinal, nenhuma criança sabe o que é trepar!! E mesmo se não soubessem, e daí? Que mal isso faria para o mundo? Sinceramente!! é nisso que uma sexóloga das mais respeitadas do país está gastando suas energias, com tanta gente engravidando e pegando doença? Tanta gente usando sexo como forma de manipulação? Tanta gente com distúrbios ligados ao sexo, muitos deles causados pelo mesmo tabu, pela mesma repressão, que ela mesma ajuda a promover, apesar de ganhar dinheiro e muita fama só falando sobre sexo para adolescentes (e falando o óbvio: use camisinha, etc, etc, etc)?

Da mesma maneira, o governo de São Paulo proibiu um livro que tinha um palavrão no meio… Eu acho que alguns adultos pensam que as crianças são retardadas! Só pode ser essa a explicação. Aquela mesma tia chata que fica apertando sua buchecha como se você fosse um boneco, sem sentimentos, sem cérebro, sem nada, pensa que voce, aos 8, ou mesmo aos 12, 14, 16 anos, não sabe nada sobre sexo, palavrões, ou coisas parecidas.

Na verdade, nessa coisa aparentemente normal de reprimir os palavrões, estão escondidos muitos defeitos que são transmitidos de geração em geração: o primeiro é que, como disse brilhantemente Henry Rollins, o sexo é condenado, enquanto a violência é totalmente incentivada. Ou seja, mesmo se o caminho para acabar com as coisas ruins fosse a repressão, será que o sexo deveria estar entre essas coisas ruins, e como primeiro da lista? Aliás, Henry Rollins falava disso ao criticar a censura do governo Bush a pessoas que apenas falaram uma palavrinha ou outra, ou melhor, um palavrão ou outro, e já aproveitou para comentar que essa censura seguia a mesma lógica que a Bíblia (que só tem violência e sacanagem- sacanagem mesmo, não estou falando de sexo, e sim de pilantragem). Como fez Saramago recentemente, que também disse que a Bíblia foca o que existe de pior no ser humano… Eu nunca li para saber, mas acredito mais em Saramago e Henry Rollins do que nos conservadores cristãos e judeus que ainda usam esse livro, que deve estar no mínimo desatualizado, e para mim mais parece um conto de fábulas do que qualquer coisa séria. O segundo erro que essa atitude demonstra é a utilização da repressão, da enganação, do eufemismo, para esconder a verdade, a fim de evitar aquilo que se considera ruim, como o sexo. O quarto defeito aqui é que essas pessoas consideram os tais palavrões como coisas de marginal, como crimes a se combater duramente, quando na verdade isso é puramente uma questão estética, se formos pensar bem. É, no máximo, uma palavra feia. Repito: será que não tem nada mais importante para a gente criticar, condenar, punir? Ou seja, o terceiro erro aqui é a distorção completa de prioridades (se é que isso é realmente uma prioridade, algo a ser combatido, mesmo na última colocação, mesmo em um mundo perfeito)

E agora chego à última atitude que queria criticar aqui: os eufemismos, essa mania de esconder a verdade das crianças e até de adultos. Agora vou sair dos conservadores de direita, para atingir também, e principalmente, os moralistas de “esquerda”: não se pode falar preto, aleijado, retardado, viado, sapatão. Ou mesmo morrer. As pessoas falecem, são negras, portadores de necessidades especiais (antes deficientes, depois portadores de deficiência, para agora chegar nisso), deficientes mentais, gays, homossexuais… Será que o que esses grupos todos realmente querem e precisam é ser chamado por uma nomenclatura com tanto eufemismo?

Participei de uma oficina de inclusão profissional de deficientes onde pensei que iríamos contribuir realmente para essa inclusão profissional. O que se fazia era buscar reportagens sobre deficientes, e mostrar os erros, como dizer “deficiente” ao invés de “portador de deficiência” (agora, como eu disse, nem isso é aceito)… Eu pergunto a todos os representantes dessas minorias: vocês querem ser respeitados, terem condições dignas de vida, ou serem chamados por uma nova nomenclatura? Os pretos só ficam ofendidos por serem chamados de pretos porque foram escravizados, e até hoje sofrem com esse passado cruel a que foram submetidos seus antepassados. Então, você quer ajudar os negros? Quer compensar esse passado envergonhador para os brancos? Não vai ser criticando quem fala “preto”, ou chamando um negro de negro. Não vai evitar que alguém sofra pela morte de outro alguém ao falar “falecer”…

Eu sei que muitas vezes essas palavras são usadas para desrespeitar. Preto, aleijado, viado, etc. Mas é a conotação que demos a elas. E a história de opressão desses grupos pelos ” mais fortes”, ou mais filhos-da-puta, talvez…

Francamente, gente. O mundo não está tão bem para ficar se atendo a esses detalhes.

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