O caso Sarney, Dilma VS Lina, CPIs: mais espetáculos dos donos do poder

Agosto 20, 2009

Ontem li uma entrevista com Umberto Eco, escritor italiano que ficou consagrado por obras como “O Nome da Rosa” (e que tem também um livro muito interessante chamado “Como fazer teses em Ciências Humanas”, muito indicado por professores).

Ele disse que, quando lhe pediu para escrever sobre liberdade de imprensa, estranhou um pouco. Uma sociedade que precisa se manifestar pela liberdade de imprensa, já está com algum problema. Mas o que o escritor disse que mais serve ao Brasil foi sobre a figura de Berlusconi e a atenção dada a ela no momento. Berlusconi não é o problema da Itália. Não basta derrubar Berlusconi. Ele é apenas um fruto, uma parte do problema. A sociedade inteira faz parte do problema.

Umberto Eco cita a ascensão do fascismo para mostrar mais um exemplo disso: não era Mussolini apenas, mas grande parte da população da Itália, que queria o fascismo, e que apoiava Mussolini.

Pois bem, o caso Sarney é a mesma coisa. Não fossem as recentes denúncias contra ele, ele continuaria como presidente do Senado. Aliás, até agora, ele continua presidente do Senado mesmo com essas denúncias, assim como Berlusconi ainda governa a Itália e muitas empresas dentro dela.

O senador Demóstenes Torres, do DEM, por exemplo, disse outro dia que havia votado em José Sarney, e agora o quer fora da presidência. Mas por que havia votado nele? Não conhece sua história? Não sabe ele que Sarney, antes de ir para o PMDB, sempre esteve ligado à ditadura militar? Não sabe que Sarney é um dos últimos “coronéis” do Nordeste, com um monte de propriedades imensas, rádios e TVs, assim como ACM na Bahia?

E o que faz o presidente Lula apoiar alguém como Sarney? O que faz o PSDB e o PT terem entrado nessa guerra e se aliado com os partidos políticos menos democráticos, mais conservadores, corruptos, entre outras coisas: PTB,PP (do Maluf), DEM? E que nada têm a ver com seus programas de partido iniciais? Por que, ao invés de se aliar com essa gente toda, eles não simplesmente se aliaram entre si? Teriam mais poder do que todos eles juntos, e, por pior que sejam, talvez ainda fossem um pouco melhor. Ao menos não eram apoiadores da ditadura militar. Ao menos tinham diretrizes mais avançadas, melhores para o país. O mesmo vale para o PMDB, que já foi um símbolo da luta pela democracia.

O que vemos aqui, nitidamente, é uma pobreza política imensa. Chega na época de eleições, e essas mesmas pessoas, de um jeito ou de outro, são eleitas. Sarney, Collor, e por aí vai. O Brasil tem medo das novidades, e quando as novidades aparecem, como Lula, elas não são tão novidade assim. Precisamos de verdadeiras novidades, pessoas que saibam negociar e se aliar com essas cobras do poder, mas que saibam também construir um caminho de mudança, de desenvolvimento humano, ambiental, etc.

Mas o país fica preso nessas intrigas que, na verdade, me parecem mais intrigas de grupos desesperados pelo poder do que algo em nome da ética e do que o país precisa. Lula e outros aliados de Sarney talvez tenham razão quando dizem que a oposição está com complexo de minoria. Mas e eles? Eles não têm complexo algum? Qual o complexo que explica o apoio descarado, ridículo, de Lula a Sarney? A busca do apoio do PMDB nas eleições de 2010? Tomara que algumas pessoas no próprio PT acordem (como ameaçaram fazer), e até mesmo no PMDB (como Pedro Simon, ou Jarbas Vasconcelos, que há um tempo atrás disse que seu partido fazia de tudo pelo poder- e quase foi punido por isso). Se isso acontecer, o tiro de Lula sai pela culatra, e ele aprenda a parar de fazer qualquer coisa pelos votos.

A oposição também tem culpa no cartório, não podemos deixar de dizer isso. A própria eleição de Sarney já contou com apoio de pessoas do DEM e do PSDB. E, como estamos vendo nessa semana, mais uma vez, depois de tanta discussão acalorada, com direito a agressões mútuas que até me divertem um pouco, tudo vai ficar como sempre: acordo. Não investigam Artur Virgílio, não investigam Sarney. E todo mundo sai ganhando. Todo mundo que mama nas tetas do governo, claro, porque nós, a imensa maioria do país, sai perdendo, e muito.

Aí aparece o tal do caso da Dilma contra a Lina. Todo um espetáculo, como se fosse resolver todos problemas do país. E, mais uma vez, me cheira a intrigas entre oposição e governistas (e a imprensa, com falta de criatividade e assunto, se aproveitando para ganhar audiência). Eu acho estranho essa história de querer agilizar investigações para beneficiar o investigado. Me parece invenção da oposição. Ainda mais sendo, coincidentemente, uma candidata à presidência. Mas acho estranho também as atitudes de Lula, quanto a isso. Lina parece ser honesta, mas não dá para ter certeza. Para mim, parece que ela está falando a verdade, mas que a oposição usou isso para fazer todo esse show, Lula e seus aliados não souberam se sair bem, e a coisa ficou assim. Cheguei até a pensar que Dilma poderia ter tido a intenção de prejudicar a família Sarney, e Lula está tão estressado com o caso todo porque sua maior aliada, Dilma Roussef, teria traído seu apoio a Sarney. Mas não importa tanto assim a verdade sobre isso, até porque, será difícil para nós, meros cidadãos, saber o que está por trás de todo esse espetáculo da imprensa e dos políticos.

Saber que Lula e Sarney não estão com boas intenções é fácil. Mas talvez muita gente não tenha percebido isso. E mais difícil ainda é fazer as pessoas perceberem que os políticos da oposição também não são os guardiões da ética, como querem mostrar. O Brasil precisa acordar e perceber que a política não é PSDB X PT. Se eles querem ficar nessa intriga pelo resto de suas vidas, que fiquem. São idiotas. Suas ideologias eram mais próximas do que as de seus atuais aliados. E um dia, talvez, foram mais éticos do que esses aliados. Mas o poder subiu a cabeça. E talvez nem seja o poder. O duelo entre esses dois partidos nos últimos anos mais parece uma briguinha de crianças mimadas, que não querem dar o braço a torcer, do que qualquer outra coisa. O caso do mensalão, o caso dos dossiês, os grampos, Daniel Dantas, foi tudo igual: a oposição dizendo que o PT era o maior corrupto da história, o PT dizendo que era tudo intriga da oposição (termo esse já conhecido da política em nosso país), e confusões envolvendo a polícia, a imprensa, e muitos outros. Onde parece que a maioria está errada. Quem investigou as possíveis ligações de Serra com a CPI dos sanguessugas? Ou o dinheiro do dossiê para incriminar Serra? Quem lembra que o mensalão tinha um monte de políticos de todos os partidos (não só do PT)? Muitos deles, inclusive do PT, foram reeleitos! Ninguém sai perdendo, eles fazem toda essa guerra, mas isso me parece apenas um teatro, porque todos eles saem bem…

O importante é que a gente perceba o quanto a coisa está pobre, está limitada. Perceber que os políticos não usam o seu tempo de trabalho para fazer políticas públicas que beneficiem a nós, com o dinheiro de nossos impostos. Porque, quando estão no Congresso, eles estão fazendo CPIs uns contra os outros. E CPIs que não dão em nada, são apenas espetáculos midiáticos, onde aparece um ou outro bancando o herói.

Temos que tomar cuidado para não achar que é tudo a mesma coisa, que são todos desonestos. Certamente, existem pessoas bem-intencionadas, em muitos partidos. O que não me parece existir são partidos bem-intencionados e movidos a programas partidários. Não é apenas o PMDB, mas todos os partidos, fazem alianças com quem quiser apoiá-los. Não existe ideologia, não existe proximidade dos programas. O importante é o poder. E as regalias que ele traz. E os culpados somos todos nós, que ficamos acomodados, buscando alguma solução fácil como Lula, PSDB, ou qualquer coisa do tipo.

Marina Silva talvez se candidate em 2010. Aécio Neves também iria se candidatar, mas as pesquisas eleitorais já decidiram que será Serra contra Dilma. E muita gente não vai votar em Marina Silva porque “ela não tem chances”, eu imagino. Assim como fizeram com Soninha em 2008, ou com Cristóvam Buarque em 2006. O que as pessoas precisam entender é que, para terem chances, essas pessoas precisam apenas de votos. Você não vai votar porque ela não tem chance, mas ela não tem chance porque você e muitos outros que pensam como você não vão votar.

Estou falando em Marina Silva, ou mesmo Soninha e Cristóvam Buarque, porque essas pessoas me parecem ter idéias novas, ter mais ética, ter aquelas coisas que estão faltando no país. Aécio Neves pode não ser uma grande novidade, mas ele me parece ter feito com mais eficiência aquele choque de gestão que o PSDB tanto fala, e que pouco fizeram Serra, Alckmin, e outros. E possui relações melhores com o PT. Isso pode ser ruim na hora das investigações: se os dois são aliados, um não vai fiscalizar o outro. Mas se na hora do “vamos ver”, todo mundo sai ileso, apenas uma meia dúzia é condenada, para satisfazer a opinião pública, é melhor ter alguém com melhores relações com o PT, porque esse duelo entre PT e PSDB parece estar atrapalhando mais o país do que ajudando. É um duelo pelo poder, não pelo que é certo para o país.

Sendo assim, eu gostaria muito de ver nomes como Marina Silva e Aécio Neves concorrendo à presidência em 2010. Vão dizer que a Marina não tem experiência administrativa. E quem é que tinha experiência administrativa antes de governar? O Maluf, que é administrador? O Kassab? Francamente, até o Lula, por pior que seja, conseguiu administrar o país. E não foi um desastre como muitos previam. Agora imaginem vocês uma pessoa que parece mais ética, mais inteligente, e com ideias muito mais importantes para o país do que Lula? Como é o caso de Marina Silva… Yes we can! Nós também podemos. A candidatura da ex-ministra já apareceu inclusive na imprensa estrangeira. A saída dela do ministério já teve uma forte repercussão, porque era interesse mundial: Marina defendia a Amazônia enquanto Lula, Dilma Roussef e Mangabeira Unger defendiam o desenvolvimento a qualquer custo, e Blairo Maggi, governador do Mato Grosso e maior produtor de soja do país, defendia seu lucro, e foi muito bem apoiado pelo governo de Lula. O meio-ambiente é algo em que temos que ser radicais, porque até mesmo o desenvolvimento econômico do país pode se beneficiar muito com nossos recursos naturais. Mas se quisermos crescimento rápido para esfregar na cara da oposição daqui a dois anos, e aceitarmos a destruição ambiental para conseguir isso, estamos cometendo um erro sem precedentes, não é mesmo?

Agora, se vocês têm medo do novo e vão continuar apostando nessas figuras que estão aí há muito tempo e não mexeram no que era urgente (como o meio-ambiente, que é uma questão internacional, não apenas nacional- e que pode trazer muitos benefícios, inclusive econômicos, para o Brasil), então está certo. Votem no Serra, na Dilma, e vamos continuar com essa mesma palhaçada que já dura uns 10 anos. Essa ameaça de sair da época em que Collor e Sarney governavam, em que a democracia era duvidosa. Mas que fica só na ameaça, só no espetáculo de TV.

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