Guardadores de carro, meritocracia e esmola

Agosto 16, 2009

Trabalhei na Assistência Social, na época em que estava acontecendo uma forte campanha contra a esmola. Se você mora na cidade de São Paulo, já deve ter visto aqueles adesivo onde se lê : ” Não dê esmola, dê futuro”.

Eu, particularmente, prefiro dar esmola a alguém do que dar dinheiro para guardadores de carro, por exemplo, ou para muitos “trabalhadores honestos”, que na verdade estão pejudicando, ao invés de contribuir para alguma coisa. É melhor não fazer nada do que atrapalhar, vocês não concordam? Acho que existe um forte equívoco, talvez até uma hipocrisia, em relação a essa questão da esmola.

Dizem que a esmola incentiva a “vagabundagem”, a exploração de filhos pelas mães e pais (que forçam eles a pedir dinheiro e depois pegam tudo e gastam como querem – muitas vezes em bebida e drogas), e, falando em drogas e bebida, dizem também que é errado dar esmola porque geralmente as pessoas vão comprar coisas prejudiciais, como pinga, cola de sapateiro, crack, etc.

Até onde eu me lembro, o sistema econômico onde vivemos, e que as pessoas que são contra a esmola costumam apoiar, prega a liberdade econômica. Prega que cada um deve gastar seu dinheiro da forma como deve. O problema principal não estaria, então, na forma como será usado esse dinheiro, mas em como ele foi conseguido.

A esmola não é a forma mais digna de se conseguir dinheiro, é verdade. Mas temos que nos lembrar de duas coisas: em primeiro lugar, não há empregos para todo, e muita gente esforçada e honesta não consegue trabalho. Alguns possuem deficiências e outros problemas que os impedem de encontrar um emprego, por mais que queiram.

Em segundo lugar, como eu já disse antes, existem trabalhos que mais prejudicam do que contribuem para alguma coisa com o mundo. Exemplos não faltam. Se você vende e produz cigarros, por exemplo, está fazendo algo pior do que apenas pedir dinheiro. Se você está produzindo coisas que poluem e que não são tão úteis para as pessoas, mas que vendem muito através de estratégias de marketing bem-feitas, você é pior do que o pedinte. Se você mente, rouba, corrompe, como muitos empresários, políticos, e até mesmo donos de ONGs, Igrejas e outras instituições que, teoricamente, servem para melhorar o mundo, você está sendo muito mais desonesto, prejudicial, e injusto, do que o pedinte. E talvez até do que o ladrão comum, porque você é um ladrão disfarçado, mentiroso.

Por fim, se você guarda carros, e pede “10 reais adiantado”, sem dar muita chance para a pessoa escolher aquele “serviço”, ameaçando a segurança dessa pessoa, serve o mesmo raciocínio.

Não são todos guardadores de carros, os chamados “flanelinhas”, que exercem seu “trabalho” de uma maneira tão agressiva, impositiva, desonesta. São esses que eu faço questão de remunerar. Eles, e os pedintes. Porque ao menos estão sendo sinceros. Talvez sejam, como diz a população mais conservadora, direitista, “vagabundos”, mas essa mesma população, quando é intimada pelo guardador de carros mais agressivo, logo solta seu dinheiro, com medo que ele destrua seu lindo carrinho importado. Mas aponta o dedo e condena os que pedem dinheiro mais honestamente, e até mesmo os que dão esse dinheiro. E essa mesma população é totalmente favorável à liberdade para o indivíduo usar seu dinheiro como quer, então, porque não pode o pedinte tomar sua pinga? Isso se chama hipocrisia.

Eu sei, não devemos incentivar a existência de pinguços, drogados, e outras coisas do tipo. Isso não é bom para ninguém. O certo, na minha opinião, é criarmos, através do governo, das ONGs , e mesmo das empresas, políticas sociais eficientes, que tornem as pessoas produtivas, dignas, saudáveis e felizes. Mas devemos ter certeza queo dinheiro que damos para essas ONGs, e para o governo, seja utilizado de uma forma correta, e não apenas com políticas que melhorem certo números, certos indicadores, mas de um jeito forçado, marketeiro, como costumam fazer os políticos.

E também podemos, individualmente, contribuir de uma forma eficiente: comprar comida ao invés de dar dinheiro, doar roupas que não usamos mais, falar coisas interessantes para as crianças de ruas, a fim de torná-las mais conscientes das coisas, etc. Mas o que não devemos é incentivar as pessoas que tentam impor coisas a nós (inclusive vendedores), as pessoas egoístas, mentirosas, que o tratam bem quando querem algo mas se não o conseguem, lhe tratam mal, ameaçam, etc.

Aproveitando o assunto, quero comentar mais duas coisas: políticas sociais, como o Bolsa Família, e a questão do desemprego e essa história de trabalhos prejudiciais e inúteis.

O Bolsa Família, por exemplo, é muito criticado. Eu concordo com grande parte das críticas, e acho que poderíamos ter um programa social melhor. O problema é que uma pequena parte dessas críticas, e que é justamente a mais freqüente, mostra o egoísmo e a hipocrisia da classe média e das elites. Como a esmola, o Bolsa Família é criticado como se os pobres não merecessem nada. E isso é um grande erro, porque a pessoa, mesmo não trabalhando, deve ter direito a comida, por exemplo- no passado, quando não era tudo propriedade do governo ou propriedade privada, as pessoas podiam pegar frutas, caçar animais, etc, de graça. É a política do “quem não trabalha não come”. E cabe lembrar que muitas dessas pessoas são pobres porque o governo, e as grandes indústrias, lhe tiraram qualquer oportunidade, até porque, no Brasil, muita gente ainda acha cômodo ter pessoas desesperadas por qualquer emprego, porque dessa forma conseguem uma mão-de-obra barata para seus empreendimentos lucrativos. Isso não é desenvolvimento, é egoísmo e burrice.

Outra coisa: muita gente fala que não devemos impedir que trabalhos como entregar folhetos nas ruas aconteçam. Porque algumas pessoas sobrevivem desse trabalho. Eu já disse duas vezes e repito: eu prefiro incentivar o ócio, a “vagabundagem”, do que incentivar um trabalho que vá fazer mal ao mundo (não que seja sempre o caso dos entregadores de folhetos, assim como o caso dos “flanelinhas”). Mas em muitos casos é isso. O folheto é como o spam, aquele e-mail que você recebe com propagandas, e que em geral te incomoda. Mas além de tudo, envolve uma questão ambiental (na verdade, duas questões: o uso de papel, e o descarte desse papel em ruas, rios, etc.) É só um exemplo. Está cada vez mais claro que “girar a economia”, aumentar o PIB, isso tudo não significa desenvolvimento e qualidade-de-vida. O aumento no PIB só é bom se ele refetir um produção que aumente o bem-estar das pessoas (de todas elas, não apenas do governante que se beneficia do PIB alto, ou do empresário que lucrou bastante com toda aquela produção que gerou esse PIB).

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