Efeito borboleta: como os abusos contra os direitos humanos no Brasil podem afetar o resto do mundo

Julho 14, 2009

Duas coisas precisam ser explicadas antes de entrar no assunto do título desse texto. Primeiro, a posição que o Brasil está assumindo no cenário internacional. Nosso país, cada vez mais, está se tornando uma grande potência, especialmente quanto a questões diplomáticas. Porque, além de ter um certo peso econômico, e um peso ambiental maior ainda, o Brasil tem um perfil de mediador, algo muito útil nas relações internacionais. Isso acontece porque, por um lado, somos um país de “meio-termo” tanto economicamente quanto politicamente. Não somos tão pobres, mas certamente ainda não podemos ser considerados um país desenvolvido. Vivemos a experiência da pobreza e da luta pelo desenvolvimento, mas nos últimos tempos, devido a políticas econômicas bem-sucedidas, e a mudanças no cenário internacional, ficamos mais fortes economicamente. Além disso, nosso povo parece ter um espírito de mediador, de diplomata, amigo de todos. Politicamente, não somos de direita nem de esquerda, tendo um diálogo relativamente bom com os EUA, especialmente depois de Obama assumir e flertar com Lula, e também com a esquerda latino-americana, já que também somos latino-americanos e temos um governo mais ou menos de esquerda, companheiro histórico de Fidel Castro e outros (ainda que Hugo Chávez, entre outros, se queixem às vezes dos nossos flertes com EUA, e ainda que, de outro lado, políticos de direita se queixem de nossas amizades com essa esquerda latino-americana). Temos até relações estáveis com países como o Irã, ou mesmo com a Coréia do Norte. É aí que eu queria chegar: nossas relações com a Coréia do Norte.

Segundo uma matéria que saiu em toda imprensa, o Brasil foi o único país do Mercosul, e um dos poucos em todo o planeta, que poupou a Coréia do Norte de críticas pelo seu programa nuclear e toda a supressão de direitos humanos que acontece por ali há anos. Veja aqui: http://www.estadao.com.br/noticias/nacional,direitos-humanos-viram-saia-justa-para-brasil-na-onu,401891,0.htm

E por que fizemos isso? Segundo a mesma reportagem, simplesmente porque não queremos que o Conselho de Segurança da ONU meta o bedelho em nossas próprias questões. Alguns brasileiros exercem um patriotismo às avessas. Não é um patriotismo, na verdade, é apenas uma maneira de manterem suas atitudes anti-éticas, criminosas, erradas, sem sofrerem sanções da comunidade internacional. Certa vez, li em um jornal, acho que era a Folha de São Paulo, um texto muito interessante de um funcionário de instituições internacionais de direitos humanos que se queixava desse problema. Ele inclusive contou sobre um membro do alto escalão da polícia do Rio de Janeiro, que idolatra o “caveirão” (o símbolo da agressividade excessiva da polícia carioca, popularizado pelo filme “Tropa de Elite”, que expôs a falta de vontade do país em seguir políticas sérias de segurança pública e de garantia dos direitos humanos). Esse policial se irrita com a intervenção dos órgãos internacionais sobre os problemas de direitos humanos do Brasil. Ele não sabe que, segundo os tratados de direitos humanos de que o próprio Brasil é signatário, NENHUM ESTADO É SUPERIOR AOS SEUS CIDADAOS, E A COMUNIDADE INTERNACIONAL PODE E DEVE INTERVIR EM ASSUNTOS DE DIREITOS HUMANOS, ESPECIALMENTE QUANDO É O PRÓPRIO ESTADO O AGRESSOR, COMO É MUITO COMUM.

Muito patriota ele. Pelo seu discurso, dava para perceber que no fundo seu problema não é apenas que ele acredita em meios violentos para combater o crime. O problema é que ele, como muitos policiais, e como muitos cidadãos que apóiam a truculência policial, é egoísta, acomodado, não quer resolver os problemas de frente, procura uma solução fácil (como exterminar todos criminosos ou qualquer um que simplesmente pareça criminoso) e usa a desculpa da segurança pública para descontar sua raiva e para praticar um pouco de sadismo. Esse assunto de direitos humanos vai longe, eu teria que fazer outro texto inteiro para explicar porque toda essa idéia de que direitos humanos é direito de bandido é uma coisa totalmente estúpida e equivocada.

Da mesma forma como acontece no meio-ambiente: ao invés de preservar a Amazônia para calar a boca daqueles que, muitas vezes com más intenções, querem se apropriar dela, ficamos nos queixando da intervenção internacional. Se fizermos a lição de casa, quebramos todos argumentos para intervenções, seja na Amazônia ou nos direitos humanos.

Pois bem, voltando ao assunto inicial, o Brasil, por querer instalar uma embaixada na Coréia do Norte, e por querer evitar que a comunidade internacional intervenha nos seus problemas de direitos humanos, poupou a Coréia do Norte de críticas.

Sendo assim, manchamos mais uma vez a imagem que podemos e queremos ter, de mediador e solucionador de problemas globais, como a ameaça da Coréia do Norte. É claro que, como vão dizer alguns, a Coréia do Norte deve ter o direito de ter bomba nuclear, se outros países tem. Mas o certo não seria justamente esses países se desarmarem, como havia proposto Obama, em sua campanha presidencial, ao invés de deixarmos a Coréia do Norte e outros se armarem? Vamos voltar à corrida armamentista e à guerra fria?

Há tempos atrás, o Brasil havia deixado de assinar um tratado que pretendia proibir as bombas de fragmentação, que deixam muitas vítimas civis no mundo inteiro. Simplesmente porque somos um dos produtores desse tipo de bomba. Entao, devemos começar a pensar em que tipo de patriotismo queremos. Se é esse patriotismo egoísta, puramente baseado em interesses econômicos e em manutenção de problemas que afetam, antes de tudo, nós mesmos, como os abusos das autoridades contra os direitos humanos e a destruição do meio-ambiente, acho que estamos beirando o fascismo. Agora, se for um patriotismo inteligente, baseado no uso de todo nosso potencial econômico, ambiental, político e cultural para ser uma potência e contribuir para melhorar o planeta, então, eu sou o primeiro a ser patriota. Devemos nos espelhar em países como a Costa Rica, que mesmo pobre, acaba de ser a primeira colocada em um ranking de qualidade-de-vida. Por que? Porque eles preservam seu meio-ambiente de forma absurda, não possuem exército, preferindo investir em coisas diferentes, e assim por diante. Assim como os países escandinavos e a Holanda, que têm uma boa tradição de Bem-Estar social e de amigabilidade com o resto do planeta. Se quisermos ficar copiando aquilo que cada vez mais destrói o planeta e é mal-visto pela comunidade internacional, achando que assim vamos tirar vantagem, estamos dando um tiro no pé. Seremos os maiores prejudicados. Acorda, Brasil! O mundo precisa de nós!

Uma resposta to “Efeito borboleta: como os abusos contra os direitos humanos no Brasil podem afetar o resto do mundo”


  1. […] para terem poder e vontade de ajudar as democracias alheias. O Brasil, como eu comentei em um post recente, está fazendo vista grossa para a Coréia do Norte, para que a comunidade internacional e o […]


Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: